Acho que tenho o dom de criar novos sentimentos dentro de mim sempre que o vazio é maior que minhas certezas. Crio também novos graus de importância para as pessoas que de alguma forma fazem parte da minha vida ou que por um capricho meu terão que fazer. Quando não há novidade, eu mesma cuido de inventa-la. E assim tem sido o nascer das emoções na minha vida: sempre forçado pelos meus caprichos.
Há poucas semanas criei uma nova amiga, apenas puxando conversa na fila da loja de conveniência de um posto de gasolina. Eu queria comprar pão e ela cigarros. Ela abriu o maço e eu pedi um. Não fumo. Mas esclareço: precisava daquela pessoa na minha vida desesperadamente, e no tempo do cigarro acender e apagar eu já tinha o seu número. Nutri a esperança de que conversaríamos inúmeras horas dali pra frente e por muito tempo. Imaginei nós duas em tardes de compras, de pipoca e brigadeiro vendo um filme reprisado na TV. Ela seria minha confidente, e eu a confidente dela. E trinta e cinco ou quarenta anos depois conversaríamos com nossos netos sobre como numa tarde corriqueira e boba de terça-feira nos tornamos amigas por um acaso do destino. Mandei uma mensagem para ela. Ela respondeu. Conversamos por uma semana e depois o assunto morreu. Ela não falou mais nada. E eu, magoada imensamente por ela ter frustrado meus planos secretos, também não a procurei mais.
No semestre passado eu criei uma paixão, dessas enlouquecedoras, por um novo alguém, antes mesmo de conhecer de fato personagem minha tola invenção. Hoje, coitado, ele é presa das minha criação irresponsável. Em tempo, explico: me sentia muito só. Num apartamento vazio e silencioso, o coração ansiava por um pulsar mais forte, e nada pulsa tanto quanto uma nova paixão. Escolhi alguém aleatoriamente e comecei a minha história inventada, que em breve seria real. Elaborei o sentimento, fiz planos completos. Primeiro nos conheceríamos mais de perto e ele se encantaria por mim. Depois teríamos o nosso primeiro beijo, seguido afoitamente do primeiro sexo e não muito longe disso, do segundo e do terceiro. Em pouco tempo, estaríamos de mãos dadas apreciando o pôr do sol. Dividiríamos o açaí das quintas-feiras e no cinema, levantaríamos o braço do poltrona só para ficarmos abraçados. Em um ano, estaríamos usando anéis de compromisso. Em dois anos, casados. Em três ou quatro, bem sucedidos nas nossas respectivas profissões e com nosso primeiro filho. Aos meus 60 anos, estaríamos reunidos na mesa da celebração de mais um Natal, com nossos três filhos e dois netos e mais uns dois casais de amigos chegados.
Ocorre que procurei meu alvo e tivemos, na verdade, o nosso primeiro beijo. Foi inevitável, O primeiro sexo, afoito e desconcertante, também aconteceu, seguido de um segundo melhor, um terceiro melhor ainda, um quarto um quinto e um sexto. No sétimo sexo ele me olhou e disse que não poderíamos ter nenhum tipo de relacionamento, e que eu não esperasse isso dele. Ele estava saindo de uma relação longa e de muitos anos, e o problema (é claro!), não era comigo, e sim com ele. Mas poderíamos ficar mais algumas vezes até decidirmos continuar apenas como amigos - quando ele decidisse assim, obviamente. E foi o que aconteceu. Hoje nos falamos todos os dias, mantendo a nossa "amizade". Recebo dele um bom dia animado, mas só isso. Não sabemos da vida um do outro, e não nos vimos mais. Mas o "Bom dia, meu bem"... Ah! Este está sempre lá, seguido por uma conversa vaga que é fruto de uma quase obrigação moral.
Hoje eu acordei infeliz. Fechei os olhos e imaginei minha morte, como tantas vezes já havia feito. Vi todo o vazio que carregava dentro de mim por tanto tempo e as tolices que fazia para tentar preencher com outras pessoas o que eu sentia falta em mim mesma. Era uma ausência presente que me consumia há anos. Eu estava ali sem estar e a ausência de mim mesma se fazia presente o tempo inteiro. Tentei explicar para várias pessoas usando linguagem figurada e explícita de que eu queria que a minha vida acabasse. Os amigos me julgaram por maldizer a vida. Os parentes não levaram a sério: não era a primeira vez que eu dizia coisas daquele tipo. E os não tão próximos de mim não deram a devida importância, afinal, se eu morresse como eu dizia... bom, isto não era da conta deles.
Fato é que acordei pensando nela: amiga, amante e sedutora... a morte me chamava como um uma canção que toca no rádio pela primeira vez e te arrepia a espinha. Não sei o que isto tem a ver necessariamente com o fato de eu inventar as coisas para tentar compensar como eu me sinto. talvez eu devesse ter começado este relato falando da morte, o velho assunto de sempre.
Olhei da varanda para baixo e senti um alívio imediato. Dei três passos para traz e algo esmagou em meu peito. Deitei. Levantei. Sentei e comecei a escrever este texto-relato. Achei que algo faria eu magicamente me sentir melhor. Não fez.
Voltei pra cama e comecei a inventar as mesmas histórias: as de amigos para sempre, as de amores para sempre, as de felicidade sem limite. Será que é essa invenção que me move?