Sempre
fico indignada em como eu não consigo render as manhãs de domingo e dormir
mais. Nas manhãs de domingo, minha cabeça é sempre um turbilhão. Eu fico
contando os minutos para que alguém acorde e me tire dessa solidão matinal
exasperada.
Hoje
eu sentei no computador na esperança de escrever sobre o que sinto. Mas depois
de errar a senha três vezes, voltei para o celular. E aqui mesmo começo mais um
texto-relato. Dessa vez um verdadeiro texto-relato, sem a faceta literária que
tinha o anterior.
Tenho
passado maus momentos e minha cabeça ainda dói. Mas estou feliz pois ontem
consegui fazer coisas que eu achei que não conseguiria. Ontem trabalhei, por
cinco horas ininterruptas e solitárias. Depois consegui sair e encontrar um
casal de amigos. Hoje eu estou escrevendo, mais uma vez, e dessa vez nem é para
espantar a dor, é só para impedir que ela não chegue. Sou uma vitoriosa! Pode
parecer bobo ou pouco para você. Mas conseguir espantar as fantasmas que rondam
a mente e executar tarefas simples, isso para mim é um grande feito.
Gostaria
de falar sobre empatia. Esse sentimento grandioso e raro e que nos permite o
reconhecimento na dor do outro. Às vezes esperamos encontrar empatia em
determinadas pessoas, mas o que nos surpreende é que encontramos ela, muitas
vezes, em alguém que não esperamos. E isso é lindo.
Esta
semana eu ouvi de um colega a seguinte frase: nunca podemos pedir consideração
do outro. Foi um lance de empatia ele ter me dito isso. Ele achava que estava
me ensinando sobre uma determinada situação, mas na verdade estava falando
sobre outras coisas. Mal sabe ele. Mas obrigada pela frase.
Eu
esperei empatia em uma pessoa, pois por ser tola demais, achei que talvez
estivéssemos nos conectando de alguma forma. Só que às vezes você se conecta a
uma pessoa num movimento solitário. É triste, mas acontece. Acho que quando
isso acontece, a pessoa não conectada deve ser sincera e minimamente
condescendente com a dor do outro. Mas isso é só o que eu acho. Não quer dizer
que isso realmente aconteça.
Pois
bem. Num movimento solitário, me conectei a alguém - e não foi por escolha. Não
consigo ser tão manipuladora assim. Dessa vez foi apenas algo que vou chamar de
transcendental por não encontrar uma palavra melhor para descrever. Enfim. Me
conectei a alguém que ofereceu um espaço para me ouvir, e eu, de bom grado,
aceitei (e a dica que dou é: não faça isso se não estiver pronto para abraçar o
outro num momento de dor). Mas o Border não é bem quisto, e por viver numa
linha limítrofe entre uma coisa e outra, ás vezes assusta. Eu já estou
acostumada a assustar pessoas com minha doença e com algumas atitudes
involuntárias. Isso está no script de ter TPB. Mas uma coisa a qual eu não
estou acostumada é que as pessoas tenham medo de mim. Isso é a mais pura
novidade. E acerta o coração mais de supetão do que bala perdida. Quando você
descobre que alguém está com medo de você, bem... Você morre um pouco por
dentro.
Agora
estou sozinha tentando lidar sozinha com esse lance do medo, sabe? É doloroso
demais saber que existe uma pessoa no mundo, seja ela quem for, que está com
medo de você.
E o
que fazer nessa hora? Já tentei dar murro em ponta de faca para explicar que
não sou nenhum Frankstein. Já tentei lembrar que eu tenho meu lado bom e legal,
e que a maioria das pessoas que eu conheço acaba por curtir essa minha faceta
positiva. Agora estou tentando esperar pra ver o que acontece, mas esperar para
um border é uma crueldade sem tamanho. Agora tento escrever para lembrar que
empatia não é algo que todo mundo tem, mas também tem algo a ver com querer
ter. Uma das amigas mais empáticas que tenho, tenho certeza, faz questão de ser
o máximo de melhor que ela pode ser pra mim. E ela consegue. E me impressiona
como ela consegue ser suave até na forma de me dizer as coisas mais difíceis.
Eu definitivamente tenho sorte em tê-la. Mas tenho certeza que antes que ela
tenha empatia, ela quer ter empatia, e isso faz toda diferença. Por que não
querer ter mais compreensão com a dor e as mazelas do outro? Acho que porque às
vezes o mais fácil é mesmo não ter, não se envolver, ser "egoísta" e
não participar. Só posso lamentar. Pensar assim é deixar de se dar oportunidade
de ajudar alguém, e mais que isso. É deixar de se dar a oportunidade de ver uma
flor nascer da pedra. Forte, lívida e amarela e resistente, insistente. É
aquela flor que se depara com a morte, mas que apesar de toda insistência
contrária, sempre escolhe viver. Eu, é claro, me vejo um pouco como essa flor.
E sigo na esperança que os outros saibam me apreciar, apesar das minhas
dificuldades